domingo, 3 de julho de 2011

Estava alegre nesse dia, bonita também. Um pouco de febre também. Por que esse romantismo: um pouco de febre? Mas a verdade é que tenho mesmo: olhos brilhantes, essa força, essa fraqueza, batidas desordenadas do coração. Quando a brisa do verão batia no seu corpo, todo ele estremecia de frio e calor. E então ela pensava muito rapidamente, sem parar de inventar. É porque estou muito nova ainda e sempre que me tocam ou não me tocam, sinto - refletia. Pensar agora, por exemplo, em regatos louros.

Exatamente porque não existem regatos louros, compreende? Assim se foge.

Ah, piedade é o que sinto então, piedade é a minha forma de amor, de ódio, de comunicação. É o que me sustenta contra o mundo, assim como alguém vive pelo desejo, outro pelo medo. Piedade das coisas que acontecem sem que eu saiba. Mas estou cansada, apesar da minha alegria de hoje, alegria que não se sabe de onde vem, como a da manhãzinha de verão. Estou cansada, agora agudamente. Vamos chorar juntos, baixinho. Por ter sofrido e continuar tão docemente. A dor cansada numa lágrima simplificada. Mas agora já é o desejo da poesia, isso eu confesso, Deus.

Durmamos de mãos dadas, o mundo rola e em alguma parte há coisas [...] flutuando sobre o mar, eis o sono.

Porque ela estava tão ardente e leve, como o ar que vem do fogão que se destampa.


                                 Clarice Lispector.

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