sábado, 13 de agosto de 2011

Não sei se será possível a gente escolher as próprias verdades, elas mudam tanto. Não só por isso, nossas verdades quase nunca são iguais às dos outros, é isso que gera o que chamamos de solidão, desencontro, incomonicabilidade. Talvez a maneira como me debato seja natural, e até positiva. É possível que eu parta daí para um conhecimento maior de mim mesmo. Então estarei livre. Acho que meu mal sou eu mesmo, esses círculos concêntricos envolvendo o centro que devo ser. Mas só poderei me aproximar dos outros depois que começar a desvendar a mim mesmo. Antes de estender os braços, preciso saber o que há dentro desses braços, porque não quero dar somento o vazio. Também não quero me buscar nos outros, me amoldar no que eles pensam, e no fim não saber distinguir o pensar deles do meu.

                    Caio Fernando Abreu.


Se a hostilidade do mundo despertar a nossa, quem vai ser o primeiro a sorrir?

Não estou falando de um mundo cor-de-rosa ou de pessoas perfeitas, sempre prontas pra nos acolher, amar, caminhar ao nosso lado. Não falo disso, mas da tristeza nos olhos de quem vira as costas e a gente não vê. A beleza por dentro de um peito encouraçado que a gente não sente. A solidão de quem afasta um amor e se deita em camas tão frias. É do instante quando os olhos se perdem no nada e nenhuma mentira é capaz de enganar a si mesmo. É desse instante solitário, desse instante sem abraço, que eu digo. Todo mundo vai virar as costas ou dizer que merece coisa melhor ou debochar das mentiras que eles contaram... mas a gente pode sempre voltar e acolher com amor, ser os primeiros a começar. Afinal, se a hostilidade do mundo despertar a nossa, quem vai ser o primeiro a sorrir?

                  Rita Apoena.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Assim como protegemos nossa felicidade, temos também que proteger nossa infelicidade. Não há nada mais desgastante do que uma alegria forçada. Se você está infeliz, recolha-se, não suba ao palco. Disfarçar a dor é dor ainda maior.

                                  Martha Medeiros s2
Eu me sinto as vezes tão frágil, queria me debruçar em alguém, em alguma coisa. Alguma segurança. Invento estorinhas pra mim mesmo, o tempo todo, me conforto, me dou força. Mas as sensação de estar sozinho não me larga. Algumas paranóias, mas nada de grave. O que incomoda é esta fragilidade, essa aceitação, esse contentar-se com quase nada. Estou todo sensível, as coisas me comovem.

                    Caio F. Abreu :)

sexta-feira, 29 de julho de 2011


Como faz com toda gente, a vida já aprontou tantas comigo, já me testou emocionalmente de tantas maneiras, já cansou tanto a minha beleza com suas armadilhas medidoras de fé, que, no fim das contas, ou aqui bem no meio delas, ela me trouxe a graça e a liberdade de experimentar viver com um coração que não é de todo valente, mas que é humano. Coração humano é feito para o afeto, quer a gente consiga viver ou não esse chamado. Coração humano é feito as borboletas, imaginado para espalhar pólen de luz, alegria, bondade, amor, de incontáveis jeitos, nesse imenso jardim, com a vantagem preciosa de geralmente viver muito mais tempo do que elas. Coração humano, por essência, é criador de beleza. É rascunho de Deus pra gente passar a limpo. E quanta dor acontece, meu Deus, porque a gente não passa. Que me desculpem os apáticos: não tenho medo de sentir, eu sinto muito.

                                        Ana Jácomo.
"Quando a gente gosta, a gente começa emprestando um livro, depois um casaco, uma guarda-chuva, até que somos mais emprestados do que devolvidos... Gostar é não devolver, e se endividar de lembranças."

                                      Fabrício Carpinejar.

Com fé.

Ele perguntou como é que eu tive certeza de que aquela escolha era a mais acertada. Respondi que nunca tive, que não tenho até agora. Porque tem coisas que a gente, simplesmente, não sabe. Decidi ali na tentativa de fazer o melhor e fui. Com fé. Sim, fé e não certeza. Vontade de que desse certo. Ou, de que pelo menos, não fosse motivo para me arrepender para todo o sempre. Em alguns momentos, deu certo. Noutros, me arrependi para todo o sempre. Agora, acho que me conformei que é assim e pronto, não tem mais volta e tudo bem. Tudo bem, de um jeito ou de outro, que a vida e o tempo consertam as coisas.

            Briza Mulatinho.

Boba de Amor.

Boba de amor,
e eu não sei no que você acredita
quando me atrapalho nas palavras
só porque sua presença me intimida.

Tenho tanta vontade de viver de novo
fico anciosa pelo próximo dia, e o próximo
para te ver de novo e reparar seus cabelos crescendo,
tua pele sendo marcada levemente pelos anos
e me apaixono da forma que o tempo passa por você

Eu posso me apegar a outras coisas,
mas você criou um mundo em minha cabeça
e enquanto eu penso qualquer coisa para que te esqueça
o mínimo que me distraio, um deslize só,
posso imaginar sua voz dizendo meu nome
e de repente posso me sentir
a pessoa mais amada do mundo
e não porque eu mereça,
mas porque você me escolheu
no teu amor

   Cáh Morandi
"Quem olha de longe não percebe e quem não se aproximar nunca vai saber: a Menina gosta de livros e Jazz, queria saber dançar, troca uma balada pra assitir a Orquestra, gosta de andar até as pernas reclamarem, tem preguiça de filme cult e vê pequenos detalhes onde os outros enxergam cotidiano. E, acima de tudo, está cansada de tanto assustar e afastar as pessoas, cansada de esperar vidas se resolverem por uma promessa de futuro e ficar pra trás mais uma vez."

                       Verônica H.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Olha, dizem que o sofrimento melhora as pessoas. Mas tenho as minhas dúvidas. Acho que a felicidade nos melhora muito. Quando estamos bem, nos tornamos mais generosos. E quando estamos mal, tendemos a ficar mais encolhidos. Não gosto daquele conceito de que só o sofrimento nos enobrece, não concordo com isso. A felicidade realmente nos melhora como seres humanos. Ela é que nos enobrece.

Lya Luft.

talvez?

às vezes escrevo. mas nunca gosto do que escrevo.
por isso é que sempre uso da escrita dos outros.
tento me encaixar no sentimento deles,
tento sentir aquilo que eles escrevem.
seria mais fácil se eu mesma escrevesse.
seria mais fácil se eu mesma sentisse.
mas… sei lá! nunca sai nada.
não sou explícita. não sei expressar direito.
mas ao mesmo tempo tudo transborda.
tudo aflora! tudo em mim quer me revelar. só não sei como.
sempre acabo com papéis rabiscados, amassados
e arremessados na primeira lata de lixo que encontro.
talvez um dia eu consiga escrever.

talvez isso. talvez aquilo. só talvez. sempre talvez.

Dois.

Como dois estranhos, cada um na sua estrada, nos deparamos, numa esquina, num lugar comum. E aí? Quais são seus planos? Eu até que tenho vários. Se me acompanhar, no caminho eu posso te contar. E mesmo assim, eu queria te perguntar, se você tem aí contigo alguma coisa pra me dar, se tem espaço de sobra no seu coração. Quer levar minha bagagem ou não?

E pelo visto, vou te inserir na minha paisagem e você vai me ensinar as suas verdades e se pensar, a gente já queria tudo isso desde o início. De dia, vou me mostrar de longe. De noite, você verá de perto. O certo e o incerto, a gente vai saber. E mesmo assim, queria te contar, que eu tenho aqui comigo alguma coisa pra te dar. Tem espaço de sobra no meu coração.  Eu vou levar a sua bagagem e o que mais estiver à mão.
Plantei num jardim um sonho bom. Mostrei meus espinhos pra você. Faz que desamarra o peso das botas e fica feliz. Abre o guarda chuva que o sol desistiu de sair. Esse perfume de alecrim trouxe denovo um sonho bom. Posso até olhar pela janela e recitar une petit chanson.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Que todo mundo tenha um amor quentinho. Descanso pro complicado do mundo. Surpresa pra rotina dos dias. A quem esperar. De quem sentir saudades. Um nome entre todos. O verso mais bonito. A música que não se esquece. O para pra toda dança. Por quem acordar. Com quem sonhar antes de dormir. Uma mão pra segurar, um ombro pra deitar, um abraço pra morar. Um tema pra toda história. Uma certeza pra toda dúvida. Janela acesa em noite escura. Cais onde aportar. Bonança, depois da tempestade. Uma vida costurar na sua, com o fio comprido do tempo.

.Briza Mulatinho.

é pedir muito?

O quê eu quero? Eu quero tudo. Quero o quê você chama de realidade. Quero o quê eu chamo de sonho. Quero muitos beijos de amor, quero a tua eternidade encostada na minha, quero encontrar teus olhos à minha procura, quero o encontro, as horas, os planos, os desejos. Quero seus sonhos acordados, quero seus sonhos dormidos, quero suas noites habitadas por mim. Quero o seu sim, quero o meu sim, quero o seu sorriso à salvo das dores do mundo, à salvo das dores que eu causo, quero sua vida vibrando nas ondas da minha, intensa e concomitantemente. Nos paralelos, nas esquinas, nas ruas, aqui dentro. Dentro das possibilidades. Quero distância dos maus pensamentos, quero tua liberdade por livre arbítrio convidando a minha pra dançar. Pra sair de mãos dadas pelo mundo como a gente sempre quis. Eu quero você. Todo. Eu quero o verbo poder. Eu quero o teu abraço apertado e suas palavras quentes lambuzando o meu ouvido. Quero fechar os olhos enquanto seus lábios os tocam, num beijo de muitos inícios e nenhum fim. Quero te ver. Nos meus sonhos. Na minha vida. Hoje, amanhã, por todas as horas de todos os dias. Quero te ver feliz, te fazer feliz. Quero ser assim, simples e amorosamente feliz.
Acredito que a natureza humana é essencialmente amorosa e que quando não demonstramos isso é porque há nuvens muito espessas escondendo o nosso sol. Nuvens de medo, dor, raiva, confusão. Mas o sol estava lá, preservado, o tempo todo. Em algumas pessoas, mais do que em outras, parece que as nuvens demoram muito tempo a se dissipar, é verdade. Às vezes, podem até não dissipar uma vida inteira, é verdade também. Mas, à medida em que começamos a abrir o nosso coração, é inevitável não sentir que ser amáveis e cuidadosos uns com os outros não é um favor, uma concessão. Inevitável não sentir que o gostinho bom de dar amor é tão saboroso quanto o de recebê-lo.


.Ana Jácomo.

O amor e a loucura

No amor tudo é mistério: suas flechas e sua aljava, sua chama e sua infância eterna.
Mas por que o amor é cego?

Aconteceu que num certo dia o Amor e a Loucura brincavam juntos. Aquele ainda não era cego.

Surgiu entre eles um desentendimento qualquer. Pretendeu então o Amor que se reunisse para tratar do assunto o conselho dos deuses. Mas a Loucura, impaciente, deu-lhe uma pancada tão violenta que lhe privou da visão.

Vênus, mãe e mulher, pôs-se aclamar por vingança, aos gritos. E diante de Júpiter, Nêmesis - a deusa da vingança- e de todos os juízes do inferno, Vênus exigiu que aquele crime fosse reparado. Seu filho não podia ficar cego.

Depois de estudar detalhadamente o caso, a sentença do supremo tribunal celeste consistiu em condenar a Loucura a servir de guia ao Amor.


JEAN DE LA FONTAINE.

A gente se acostuma

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento dos fundos e não vista que não sejam as janelas ao redor. E porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma e não abre as cortinas.E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, se esquece do sol, se esquece do ar, esquece da amplidão. A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números, da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: “hoje não posso ir”. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que se deseja e necessita. E a lutar para ganhar com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra. A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir as revistas e ler artigos. A ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de ar condicionado e ao cheiro de cigarros. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam à luz natural. Às bactérias de água potável. À contaminação da água do mar. À morte lenta dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta por perto. A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta lá.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua o resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem muito sono atrasado.
A gente se acostuma a não falar na aspereza para preservar a pele. Se acostuma para evitar sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Num banco qualquer

Atordoada, senta-se no primeiro banco que seus olhos puderam alcançar e tenta recuperar o fôlego. O ar entra e sai como punhais em diferentes pontos de suas costas. Suas pálpebras se movem grosseiramente tentando clarear a vista. As pessoas vão e vem, mas ninguém a nota, ninguém ousa notar. O seu corpo pesa, suas mãos suadas escorregam do rosto para a nuca. O tempo passa, o tempo passa e isso dói, o tempo dói. O tempo tem um gosto amargo em sua boca.
A solidão invade cada um de seus milhares de poros e um vazio preenche o peito. Multidões vão e vem, desviando olhares, buscando conforto no tique-taque dos relógios de pulso, nas mensagens antigas de celular. A indiferença lhe corta a garganta, até que a dor do corte, já tão profundo, faz tudo se estourar em um grito, um grito que cala lá dentro e assusta lá fora. As pessoas ousam olhar. Olhares curiosos, desaprovadores, assustados. Olham com pena. Ela não buscava pena.
Um homem de terno e gravata joga-lhe uma moeda. Ela dá o troco, abre sua níqueleira e atira uma moeda canadense em suas costas. O homem, assustado, acelera o passo e se perde em meio a multidão. A última coisa que ela queria é que sentissem pena. Ela sabia que pena é como olham quando não compreendem, e ela buscava compreensão, que lhe faltou a vida inteira.
Perturbada, irritada, vulnerável, se deita no banco e deixa o braço cair. Os sentidos começam a se acalmar. Fecha os olhos e tenta se distrair com alguma música. Não há música. Ela sente alguém se aproximar, uma sombra fica entre seus pés e o sol. Se prepara então para ser expulsa do local, ou mais educadamente, para se retirar, com um discurso que visa dizer apenas que banco de praça no meio da nata da sociedade não é lugar para ficar vagabundeando.
Ela abre os olhos, um rapaz de cabelos grisalhos se senta na ponta do banco, e lhe oferece um copo de água. Ela balança a cabeça, recusando. Ele segura sua mão e tenta fazer com que ela se sente. Depois de muito insistir, ela cede, e os dois ficam sentados, lado a lado. O coração dela ainda bate agitado. Ela o observa minuciosamente. Até que seus olhos vão de encontro ao ombro dele, que a atraí ensandecidamente. Ele segue uma viatura da polícia com a cabeça, e nesse mesmo momento, a atração é tanta, que ela se deixa encostar a cabeça em seu ombro. Os olhos dele, sorridentes, se encontram com os dela, satisfeitos. Seu coração, agora se acalma, e o tempo passa na medida exata. É como se, finalmente, ela se encontrasse.
Dizem que a gente tem o que precisa. Não o que a gente quer. Tudo bem. Eu não preciso de muito. Eu não quero muito. Eu quero mais. Mais paz. Mais saúde. Mais dinheiro. Mais poesia. Mais verdade. Mais harmonia. Mais noites bem dormidas. Mais noites em claro. Mais eu. Mais você. Mais sorrisos, beijos e aquela rima grudada na boca. Eu quero nós. Mais nós. Grudados. Enrolados. Amarrados. Jogados no tapete da sala. Nós que não atam nem desatam. Eu quero pouco e quero mais. Quero você. Quero eu. Quero domingos de manhã. Quero cama desarrumada, lençol, café e travesseiro. Quero seu beijo. Quero seu cheiro. Quero aquele olhar que não cansa, o desejo que escorre pela boca e o minuto no segundo seguinte: nada é muito quando é demais.

O Inventário do Ir-remediável

Mas e se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais - por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia - qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber porquê. Melhor do que não sobrar nada, e que essa nada seja áspero como um tempo perdido. Eu prefiro viver a ilusão do quase, quando estou “quase” certa que desistindo naquele momento vou levar comigo uma coisa bonita. Quando eu “quase” tenho certeza que insistir naquilo vai me fazer sofrer, que insistir em algo ou alguém pode não terminar da melhor maneira, que pode não ser do jeito que eu queria que fosse, eu jogo tudo pro alto, sem arrependimentos futuros! Eu prefiro viver com a incerteza de poder ter dado certo, que com a certeza de ter acabado em dor. Talvez loucura, medo, eu diria covardia, loucura quem sabe.

Caio F. Abreu
Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar perfomances dignas de um atleta olimpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão “apenas” dormir abraçados, sabe, essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução negra.
Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções que nos fazem parecer rídiculos, abobalhados, e daí? Seja rídiculo, não seje frustrado, “pague mico”, saindo gritando e falando bobagens, você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta. Antes idiota que infeliz!

Arnaldo Jabor.

domingo, 17 de julho de 2011

passos imaginários no escuro

Ontem eu vi o mar. Fazia tempo que eu não o olhava de frente, a ponto de quase molhar meus pés. Não recordo a última vez que eu o encarei, peito aberto e uma enorme chaga sem cura e espera de cicatrização. Era noite. Uma longa e interminável noite fria de inverno. Vento cortava meus suspiros. No mercado, cravado 19 graus. Frio absoluto apenas em meus olhos. Durante o dia, um lindo sol fora de estação. Mesmo assim, sentia o frio congelar minha fala, meu pensar, meus passos.
Precisava ver o mar, como há tempo não o via. Senti vontade de mergulhar, em um abafado e silencioso pulo no espectro escuro da lua. Precisava caminhar sozinho, feito cão sem dono na barriga da noite. Para dialogar comigo sobre o tempo, o fogo, a dor... precisava me encontrar.
Perdido em rotas imaginárias que meus sapatos faziam ao tocar a areia no branco encontra com as espumas do mar, vaguei em labirintos desertos dos desencontros e medos mais remotos da minha parda existência. Longe da confusão de fora, enquanto o caos do urbano devorava a cidade em combustão; eu, perdido em pensamentos e memórias do passado, apenas chorava a dor de sua ausência.
Enquanto tentava manter a mente em paz e o coração tranquilo, numa luta desumana entre os Eros e meus medos secretos, sua imagem cristalizava em minha retinas úmidas. Passos em falso em um abismo. Meus pés sem um porto seguro e minhas mãos tentando agarrar um reflexo de lapsos de memória. Vaguei sobre corpos celestes durante uma queda interminável. Sua voz ao longe era uma música desconhecida, repetindo sem cessar dentro de mim. Em milhões de pedaços em mim, em mil, em nós.
Tentei abafar a sufocante dor que dominava meus desvaneios. Disposto a acabar com tudo, lancei ao mar o lado mais belo que permanecerá em mim: o sentimentos que alimentamos nestes últimos séculos de amor em evolução. Joguei-o longe, fora do alcance da arrebatação, para que o oceano aberto o deixe à deriva, sem a chance de regressar. Senti-me morto, segundo após desprender-me de meus sentimentos.
Joguei também as imagens que se formavam em minha mente. Não que eu queira esquecer nossos dias, tampouco nossos passos, mas não posso deixar meu incosciente os melhores momentos de nossa caminhada. Uma espécie de fantasma a me torturar em uma terça-feira tediosa e cheia de problemas. Lancei ao mar todas as lembranças do passado para que não voltem em um momento de grande dificuldade. E, assim, sem querer, os fragmentos de seus charmes e gestos arrancarem-me um sorriso dos lábios desacostumados a sorrir desde que deixei em águas calmas a calmaria de nós dois.
Não que eu queira esquecer o passado, mas é preciso. Na luta interna entre querer-te ou seguir em frente - que não acredito - para acalmar os sonhos abordados pelo medo oposto.
Não que eu queira te esquecer, eu preciso. E luto contra isso, com todas as minhas forças semi-esgotadas. Preciso desesperadamente esquecer-te, como preciso neste instante de seu abraço e regresso; ou necessito de atenção; de todos os impulsos que Pan teme; que Eros lança à terra. O ar arde em labaredas vermelhas. Fogo e dor se misturam em um ciclo interminável. Sísifo em seu ardo labor. IN-VA-RI-A-VEL-MEN-TE... VOCÊ.
Pensei no fogo, pensei na dor, pensei no amor. Agora, em alto mar, nossos sonhos, nossos planos. O futuro perdido pelo medo do passado. Não que eu queira esquecer. Faz-se necessário apagar dos labirintos da memória seu rosto, seu gosto, tudo... tudo que me deixa em paz. Uma claridade viva de uma mente sem lembrança. Perdido sobre os rastros deixado na areia, esperando o mar trazer o que lancei, recolho o que sobrou de tudo.
Despejo na penteadeira o resto dos sonhos... despejo em copos vazios a lamentável dor dos sentimentos esquecidos lançados no mar sem memória, sem cor, sem vida, sem nada. Enquanto durmo, ouço passos escondidos no porão da alma. Verdades derretidas em douradas chuvas de consciência: você?
Amanhece mais um dia. Como sempre amanheceu e amanhecerá... os pés sujos de areia e a roupa molhada de suor provam a existência de minha difícil escolha. Sendo onde correr, ou abraço para me abrigar da chuva ácida, deito sobre o rumo, o rumo de seus olhos castanhos: estranhos enganos! Espero que a civilização inteira se levante para, enfim, poder enterrar meu rosto embaixo do cobertor. Dormir em berço explendido sobre a luz do meio dia. Esquecer o que tentei esquecer e acordar para ver o sol queimando a cara. Passos imaginários no escuro. Olho em volta e você não está.

Gerânios

Fico tão cansada às vezes, e digo para mim mesma que está errado, que não é assim, que não é este o tempo, que não é este o lugar, que não é esta a vida. (…) então eu não sentia nada, podia fazer as coisas mais audaciosas sem sentir nada, bastava estar atenta como estes gerânios, você acha que um gerânio sente alguma coisa? quero dizer, um gerânio está sempre tão ocupado em ser um gerânio e deve ter tanta certeza de ser um gerânio que não lhe sobra tempo para nenhuma outra dúvida…
“Em luta, meu ser se parte em dois. Um que foge, outro que aceita. O que aceita diz: não. Eu não quero pensar no que virá: quero pensar no que é. Agora. No que está sendo. Pensar no que ainda não veio é fugir, buscar apoio em coisas externas a mim, de cuja consistência não posso duvidar porque não a conheço. Pensar no que esta sendo, ou antes, não pensar, mas enfrentar e penetrar no que está sendo é coragem. Pensar é ainda fuga: aprender subjetivamente a realidade de maneira a não assustar.
Entrar nela significa viver.”
Claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, a questão é onde, não nesta cidade escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim? Ora, não me venha com auto-conhecimentos redentores, já sei tudo de mim, tomei mais de cinquenta ácidos, fiz seis anos de análise, já pirei de clínica, lembra? Você me levava maçãs argentinas e fotonovelas italianas, Rossana Galli, Franco Andrei, Michele Roc, Sandor Moretti. Eu te olhava entupida de madrix e babava soluçando. Perdi a minha alegria, anoiteci, roubaram a minha esperança, enquanto você, solidário e positivo, apertava o meu ombro com a sua mão apesar de tudo viril repetindo reage, companheira, reage, a causa precisa dessa tua cabecinha previlegiada, teu potencial criativo, tua lucidez libertária, bababá bababá. As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, minha pele era triste e suja, as noites não terminavam nunca, ninguém me tocava, mas eu reagi, despirei, e cadê a causa, cadê a luta, cadê o potencial criativo?
Tenho admiração nata por quem segue o coração. Eu acredito nas pessoas livres. Liberdade de ser. Coragem boa de se mostrar. Dar a cara a tapa, ser louca, estranha, linda, chata! Eu sou assim. Tenho um milhão de defeitos. Sou volúvel. Tenho uma TPM horrível. Sou viciada em gente. Adoro ficar sozinha. Mas eu vivo para sentir.
  
                                  Fernanda Mello

Maury Gurgel para Clarice Lispector.

Não pense que eu ando só atrás de belas coisas simples. Eu quero qualquer coisa, desconexa, contraditória, insegura, não tem importância desde que seja sua. As definições redondas e grandiloqüentes, as coisas categóricas e acabadas não me satisfazem, porque eu não sou assim.

me permitir ser um pouco insignificante

E na minha insignificância, poder acordar um dia mais tarde sem dar explicações, conversar com estranhos, me divertir fazendo coisas que nunca imaginei, deixar de ser tão misteriosa pra mim mesma, me conectar com as minhas outras possibilidades de existir.
Mas e se por um siples passe de mágica, toda impulsividade do mundo acabasse, será que ainda existiria discussões bobas, beijos roubados, sorrisos inesperados, palavrões no trânsito e toda a pieguice do mundo?

terça-feira, 12 de julho de 2011

Mais pobres ficam para trás na corrida pelos ODM
“O progresso tende a ignorar aqueles que estão nos patamares mais baixos da hierarquia econômica ou são desfavorecidos de alguma maneira por causa de seu gênero, idade, deficiência ou etnia”


"a culpa é do hipócrita,
do mentiroso e do esperto ao contrario…
que joga a pedra e esconde a mão”
Estamira.
 
São os dias a redução de nossas vidas e toda ela. Na consecução das horas propomos algo, sempre, incansavelmente apontamos uma direção, uma proposta ou até alguma recusa. Mas venho “suspeitando” da torpe cegueira que nos acomete para propósito específico, conforto imediato, medo gratuito. Para onde caminhamos e verdadeiramente segue-me a própria sombra, que estrada responde nossas expectativas? – inventamo-nos e desconstruímos a nós de forma análoga a feitura destas mesmas invenções. Aos obstáculos e ao pouco que a vida me entrega de forma fácil e simplória digo-lhe com palavras de poeta amargurado: não as quero, devolvo-lhe como um tapa na outra face, jamais irei aceitar de bom grado uma oferta que me venha ser: “a doença da felicidade”, “a resignação ao sorriso fácil”, “o modesto de: te aceito entre os nossos” – minha vida é minha escolha, meu corpo única obrigação e aos meus olhos sinceros à todo aquele que saiba vê-lo. E o poeta solitário e atento nos diz: ”Eu não vou querer… O amor somente é tão banal. Busco a paixão fundamental, Edípica e vulgar, de inventar meu próprio ser.(Belchior)” – justo o próprio ser a invenção completa e contínua de si mesmo, sem entregar-se ou por abaixo o esconderijo secreto que reside a aliança mais completa entre os homens, a sinceridade que propõe a loucura e a embriaguez, ao instantâneo e imprevisto, ao que nada importa e tudo há: o dilema da fraternidade. Ao aperto de mãos não indulgentes, aos abraços que sufocam a dor e o temor, à união da terra e do sol banhado pelo mar e assistido pelas estrelas e para tanto aos que compartilham teus segredos comigo dou-lhes toda minha devoção o que me resta de mais caro. E por fim:
 
…eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Longe o profeta do terror
Que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais
Amar e mudar as coisas
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais…”
(Belchior – Alucinação)
 
 
“Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro”
(Belchior – Sujeito de sorte)

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Michael “Wüzel” Burston, ex guitarrista da Motörhead morre aos 61 anos

O ex guitarrista do Motörhead, Michael “Wüzel” Burston, que tocou na banda entre os anos de 1984 e 1996, faleceu ontem (domingo 10/07/2011) por problemas cardíacos aos 61 anos de idade.
O guitarrista que tocou em álbuns como “Orgasmatron” de 1986, “1916” de 1991 e “March Or Die“, de 1992, estava trabalhando em novas músicas com a sua banda Leader Of Down.

domingo, 10 de julho de 2011

Querida INSÔNIA

Na correria em que se encontra a minha vida, por causa do trabalho e afins, tenho ficado em falta com muitas pessoas. Não digo isso - sobre a correria - para parecer bacana, pessoa ocupada, essas coisas. Digo com peso na consciência mesmo, porque a minha natureza é abraçar o mundo com os braços e as pernas, sempre me propor a fazer mais do que realmente deverias fazer, porque as pessoas precisam respirar, ora pois!
Mas eu topo tudo isso, uma coisa abrandando a outra, no meio da confusão de datas limite, urgências e por aí vai.
E o que vem com isso, claro, é a insônia. Minha amiga insônia adora me visitar nessa época do ano, quando trabalho bastante no festival de música que acontece em julho. Mas por incrível que pareça, eu não me importo. Chegando em casa, depois de quase doze horas de trabalho, ainda dou uma geral no que precisa ser feito no dia seguinte. Levar trabalho para casa é básico. Depois, confesso, quando possível eu assisto novela… Sou noveleira, fazer? Sem contar que esse momento de brigar com os personagens como se eles estivessem na sala de casa é um tipo de abrandamento de adrenalina do dia. Faz com que eu perceba que estou em casa.
Porém, a pergunta recorrente é Carla, sua doida, como você trabalha tudo isso e ainda assiste um monte de séries?. Eu assisto um monte de séries, o que não deixa de caber na minha categoria noveleira. Assisto, acompanho, descabelo-me de acordo com a trama. E adoro escrever a respeito. A pergunta recorrente que vem em segundo lugar é Carla, sua doida, como você trabalha tudo isso e ainda assiste um monte de filmes?. Assisto mesmo… Adoro cinema, apesar de ser péssima frequentadora das salas de cinema. Não alugo apenas um filme, só quando me dá a louca de pegar lançamento. Fora isso, saio sempre com o mínimo de cinco filmes da locadora.
As resposta para ambas as recorrentes perguntas é a insônia.
Não fosse a insônia, eu não teria encarado a maratona de House MD. Não comecei a assistir a série quando foi lançada. A verdade é que me tornar fã de Dr. House não estava na minha lista. Minha tevê não tem o canal no qual a série é veiculada, então passou batido por um tempo. Até que eu soube que, no episódio 15 da terceira temporada, o Dave Matthews - aquele mesmo, da Dave Matthews Band, que eu adoro, assumidamente - fez uma participação. Como não é de mim assistir episódios isolados de séries, fui até locadora e peguei as três primeiras temporadas. Foi o período em que bati meu recorde… Dormia duas, três horas no máximo por noite, só para chegar ao próximo episódio. Quando cheguei ao episódio em questão, House já tinha me ganhado.
O mesmo aconteceu com Dexter. Assisti um episódio na tevê, mas me deu calafrios. Como assim um serial killer trabalhando na polícia? Deixei de lado, até que um amigo falou com tanto entusiamo da série que decidi colocar meu gosto em pratos limpos. Aluguei as 3 temporadas, a quarta estava passando na tevê. Não há como não cair de amores por essa série, e pole serial killer em si. É fantástico como as coisas parecem mais simples sob o olhar dele, o que é meio absurdo, não? É… Mas a série é fantástica!
Na semana que passou, confisquei os cinco filmes que queria assistir na companhia da minha insônia. Confesso, sem muito ânimo, que peguei o terceiro filme da série do vampiro Edward e da indecisa Bella, mas só porque havia assistido os outros dois, e porque confiro tudo o que tem o tema vampiro. Definitivamente, não são filmes que me agradaram, mas apenas me fizeram pensar com mais gosto na obra prima  Drácula de Bram Stocker (Bram Stocker’s Dracula/1992), no Entrevista com o Vampiro (The Vampire Chronicles/1994), n’A rainha dos condenados (Queen of teh Damned/2002) e por aí vai. Também, por indicação, peguei uma comédia daquelas fofas e sacanas, que a gente asssiste, mas não fica muito tempo na memória.
Porém 3 filmes da leva foram de colocar qualquer insônia na ativa:
Conta corrente (Against the Current/2009), sobre um homem que, ao completar cinco anos da morte da esposa grávida, decide atravessar o Rio Hudson e cometer suicídio, depois de concluir essa jornada. A viagem é feita com um amigo e uma conhecida desse amigo. É melancólico, no que a trilha sonora ajuda muito, e um belo filme.
Os segredos dos seus olhos (El Secreto de sus Ojos/2009), um filme muito interessante, que mostra como alguns personagens reagiram a um assassinato, e as consequências disso durante os vinte cinco anos que se seguiram. Adoro o diretor Juan José Campanella, e acho que a parceria dele com o ator Ricardo Darin tem dado ótimos frutos. Não vou dar detalhes sobre o filme… Assista que vale a pena!
Para fechar a minha sessão-insônia, um filme que me fez rir do jeito que gosto. Não sou fã de besteirol, gosto de comédias com bons atores e boas histórias, com tiradas interessantes. E quando essa comédia envolve um Robert Downey Jr. (Fernanda, lembrei de você!) em um ótimo momento, e o hilário Zach Galifianakis, então estou bem. Um parto de viagem (Duo Date/2010) é daqueles filmes para se comprar, e em noites de insônia, assisti-lo só para quebrar o silêncio da madrugada, mas com gargalhadas. E pode parecer bobagem, mas para mim funciona muito bem. Em noites de insônia, regadas a filmes e séries, as duas ou três horas que durmo são suficientes para me deixar bem no dia seguinte.



Carla Dias.
Deixe eu me livrar das minhas marcas;
deixe eu me lembrar de criar asas.

Qual é a sua estrada?

- A estrada do místico, a estrada do louco, a estrada do arco-irís, a estrada dos peixes, qualquer estrada... Há sempre uma estrada em qualquer lugar.

Kerouac - on the road.
É. Eu acredito no amor.
Sinceramente. ♥
De Drummond para vocês:
"Ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela."

Poderíamos casar, teríamos um apartamento, tomaríamos café as cinco da tarde, discordaríamos quanto a cor das cortinas, não arrumaríamos a cama diariamente, a geladeira seria repleta de gelados e coca-cola, o armário, de porcarias, adiaríamos o despertador umas trinta vezes, sentaríamos na sala de pijama e pantufa, sairíamos para jantar em dia de chuva e chegaríamos encharcados, nos beijaríamos no meio de alguma frase, você pegaria no sono com a mão no meu cabelo e eu, escutando a sua respiração. Eu riria sem motivo e você perguntaria porque, eu não responderia, saberíamos.

Caio Fernando Abreu.

de ontem em diante

Serei o que sou no instante de agora. Onde ontem, hoje e amanhã são a mesma coisa, sem a ideia ilusória de que o dia, a noite e a madrugada são coisas distintas; separadas pelo canto de um galho velho. Eu apóstolo contigo que não sabes do evangelho, do versículo e da profecia. Quem surgiu primeiro? O antes, o outrora, a noite ou o dia? 
Minha vida inteira é meu dia inteiro, meus dilúvios imaginários ainda faço no chuveiro! Minha mochila de lanches? É minha marmita requentada em banho Maria! Minha mamadeira de leite em pó é cerveja gelada na padaria; Meu banho no tanque? É lavar carro com mangueira. E se antes um pedaço de maçã, hoje quero a fruta inteira. E da fruta tiro a polpa, da puta tiro a roupa, da luta não me retiro. Me atiro do alto e que me atirem do peito, da luta não me retiro! 
Todo dia de manhã é nostalgia das besteiras que fizemos ontem.

O Teatro Mágico.

sábado, 9 de julho de 2011

Retrato da Gente




Eu acho que não há nada que nos faça sentir tão bem quanto a família da gente. Por mais que haja complicações, maluquices e coisas do gênero. Nossa família nos lembra quem somos. Enxerga nossa essência. Nos conhece do avesso. Namorado e amigos também (tenho poucos) e é justo estarem inseridos aqui.

Família, pra mim, tem aver com o jeito que você pensa. O mundo que você ama. A forma que você vê o mundo.

Hoje eu só queria deixar bem claro que a família é pedaço importante meu e dizer que - se existem qualidades em mim - eu devo a eles.

Mulheres

Eu acho que ser mulher é a coisa mais bacana que existe. Nós somos complexas. Levemente malucas. Fofas. Temos obsessões por coisas que só nós entendemos. Morremos de frio quando a temperatura desce míseros graus. E viramos onça, quando preciso.

Somos, na verdade, seres completamente hormonais e emocionais. Nós inventamos a doçura (sabia?). E gostamos de criar (e recriar) por natureza.
É. Eu tenho orgulho de ser mulher. E gosto de dizer que jamais queimaria meus sutiãs. Mas existem coisas que me fazem realmente sentir inveja dos homens: ACREDITAM?

Primeiro, a facilidade deles em usar qualquer banheiro. Depois, o modo como eles ficam mais charmosos com o passar dos anos. E, por último (e não menos importante), a tal SOLIDARIEDADE MASCULINA. É. É bem aí que eu quero chegar. Parece haver um código de conduta entre os rapazes. Um acordo de auto-preservação. Uma espécie de pacto incondicional, que nasce com os homens junto com o 'dito cujo' e onde nenhum Clube da Luluzinha entra. Bom, pelo menos, não dessa forma. 

Ah, como eu admiro os homens por isso! Olho para os tantos segredos que eles guardam de nós e penso: meninas por que isso não acontece com a gente? Bom, deixe-me explicar. Com as mulheres a coisa é bem diferente. Nós temos umas poucas - e fiéis - amigas pelas quais matamos e morremos. De resto, é horrível generalizar: mas as mulheres conseguem ser bem desleais quando querem. É. Invejosas. Criadoras de intrigas. Verdadeiras cobras (bem-vestidas e cuidadosamente maquiadas, claro). 

Eu me considero uma fiel defensora da ala feminina. Mas tenho que admitir que, nesse aspecto, os homens dão um banho na gente. Eles são muito mais cúmplices uns dos outros. Mais companheiros.

Meninas, vamos mudar esse quadro? Isso está ficando feio demais para nós. Eu acho lindo quando pergunto, para alguns amigos ou namorado, assuntos que não me dizem respeito e eles não me respondem de jeito nenhum. (Se os mesmo acontecesse com as mulheres, sei que elas contariam tudo para os moços). Talvez seja esse o mal feminino: nós adoramos FALAR. Sentimos que, assim, estamos sendo sinceras, conectadas com a verdade, mesmo que a lealdade com outras mulheres seja posta à prova.

É, acho que chegamos ao xis da questão: nós, talvez, não tenhamos a mesma solidariedade masculina por um fator meramente cultural. Desde nossas tataravós, somos condicionadas a colocar os homens(pai, irmaõ ou marido) em primeiro lugar.

Bom, estamos numa era tecnológica. Vivemos numa moderninada externa inacreditável. Temos uma presidente mulher no poder. E continuamos, por dentro, as mesmas de sempre. O espartilho não nos deixa mais sem ar. Mas a sociedade, sim. E, apesar de nos mostrarmos liberadas e independentes, continuamos medindo nossos valores com o fato de termos - ou não - um bom marido ou namorado. Olha que moderno!

Bom... eu não estava falando sobre a solidariedade feminina? É. Parece que quando um homem entra no meio, as mulheres se esquecem do que a gente sempre deveria se lembrar: do feminino. É. E o feminino que mora em mim é o mesmo que mora em todas as mulheres e, que está aí, perdido desde o tempo que as mulheres ficavam juntas e dançavam em volta das fogueiras. Entenderam?

Por isso, aí vai o meu pedido (que não vai ser fácil pra mim, nem pra mulher alguma): vamos pegar o exemplo dos homens e, com isso, SERMOS MAIS MULHERES. Mais unidas. Mais amigas. Colocando o feminino (o nosso feminino), em primeiro lugar.
É, mulheres, chegou a hora de honrarmos nossos próprios sutiãs.

Fernanda Mello.

Seja  a mudança que deseja ver no mundo.
Gandhi. 
 

sexta-feira, 8 de julho de 2011

fortaleza da solidão

Do lado em que nasce o sol, você repousava calma e bela. Dias seguintes, não enxergo mais a paz e a clarividencia que a sua presença emitia. Distante do que éramos, estamos, agora, anos luz de uma estrada em destinos diversos. Cada um para um lado; silencio entre nós dois.
   Na briga interna de seu mundo, fragmentos atingiram minha calmaria alcançada depois de árduas lutas. Abalado, frágil e cansado das batalhas do passado, seu sorriso enfeita a galeria de minha memoria rarefeita. Pedaços de sentimentos e sonhos destruídos. Em milhares de pontos, seu magnetismo, aos poucos, se perdeu de dentro de mim. Com quantos litros de medos se desfazem sentimentos? Quantos metros de duvida acabam com o amor? Com quantos quilos de solidão são necessários para reconstruir uma alma em frangalhos? O silêncio de nós dois.   Mas te espero, pois o grito dos teus olhos é um misto de arrependimento, medo e insegurança. Somente em meus braços poderá, enfim, reencontrar o choque a equilibrar seus desatinos e arrependimentos de pecados do passado. Seu sorriso espontâneo despertou os sonhos que tive, esquecidos sobre a penteadeira. Desde que você partiu, o doce de meus lábios deu vazão à apatia e descontentamento. O silencio de seus passos, a solidão de nossas palavras. O frio a arrepiar a alma.   Toda a poesia é uma despedida. Você disse adeus e deixou em mim um vazio descomunal. Desde então, encobri minha dor com um manto azul: um amor e uma magoa. Eu lavei meu rosto com palavras tristes quando acenou-me tchau. De vez em quando, todos os olhos se voltam contra meus passos distraídos. No fundo, a espera que eu seja algo maior que eu sou. Na minha Fortaleza da Solidão, sem rascunhos de Krypton e super poderes, observo o isolamento das pessoas nas grandes metrópoles.
No silencio da noite, fecho os olhos e imagino você chegar.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

os aniversariantes do dia! ;)

Synyster Gates (30 anos) - guitarrista solo da Avenged Sevenfold - afterlife guitar solo


 Ringo Starr (71 anos) - ex-baterista dos Beatles

terça-feira, 5 de julho de 2011

Morangos Mofados - Caio Fernando Abreu

O MOFO

O gosto amargo da derrota, cheirando a mofo, a vomito, a vodka barata, a cigarros. Uma melodia sentimentalmente melancólica aos fundos. Escuridão e desencontros. O gosto da escuridão esculpida em delírios da alma. Encravada em labirintos tortuosos e escuros de forma magistral. A sensação é idêntica à saída de uma montanha-russa.
OS MORANGOS

Aqui, uma paz tranquilizadora invade de forma mágica a alma dos personagens. Como se a existência de um final feliz fosse possível em breve, ou como se a vida fosse menos pesada. O doce levementa ácido do morango fundido na língua, mostrando um belo dia de sol após uma tempestade. Mas o doce dá espaço para a acidez, transformando pedaços de magia em mágoas e solidão. Enquando o dente fere o vermelho brilhoso do morango, na boca permanece o gosto azedo do preconceito, do medo, dos sonhos perdidos, das utopias transformadas em contas bancárias. O enjoo natural dos abusos. Dos delírios causados pelo excesso de cocaína.

MORANGOS MOFADOS

Com os olhos fechados, ouço "Let me take you down, 'cause I'm going to Strawberry Fields. Nothing ir real an nothing to get hung about. Strawberry Fields forever". Como se eu estivesse num universo paralelo, um refúgio, um abrigo, uma morada longe, mas dentro, do caos urbano. Uma espécie de esconderijo para se abrigar na chuva tóxica, ou dos desatinos do coração. Enquanto imagens explodem diante de nossos olhos cansados, ao fundo, o som dos Beatles vai levemente aumentando, aumentando...
   Foi numa dessas manhãs sem sol que percebi o quanto já estava dentro do que não suspeitava. E a tal ponto que vive a certeza súbita que não conseguiria mais sair. Não sabia até que ponto isso seria bom ou mal - mas de qualquer forma não conseguia definir o que se fez quando comecei a perceber as lembranças espatifadas pelo quarto.
   Não que houvesse fotografias ou alguma coisa de muito concreto - certamente havia o concreto em algumas roupas, uma escova de dentes, alguns discos, um livro: as miudezas se amontoavam pelos cantos. Mas o que marcava e pesava era o intangível.
   Lembro que naquela manhã abri os olhos de repente para um teto claro e minha mãe tocou um espaço vazio a meu lado sobre a cama, e não encontrando procurou um cigarro no maço sobre a mesa e virou o despertador de frente para a parede e depois buscou um fósforo e uma chama e fumei fumei fumei: os olhos fixos naquele teto claro.
   Chovia e os jornais alardeavam enchentes. Os carros eram carregados pelas águas, os ônibus caiam das pontes e nas praias o mar explodia alto respingando pessoas amedrontadas. A minha mão direita conduzia espaçadamente um cigarro até a minha boca: minha boca sugava uma fumaça áspera para dentro dos pulmões escurecidos: meus pulmões escurecidos lançavam pela boca e pelas narinas um fio de fumaça em direção ao teto claro onde meus olhos permaneciam fixos. E minha mão esquerda tocava uma ausência sobre a cama.
   Tudo isso me perturbava porque eu pensara até então que, de certa forma, toda a minha evolução conduzira lentamente a uma espécie de não-precisar-de-ninguém. Até então aceitara todas as ausências e dizia muitas vezes para os outros que me sentia um pouco como um albúm de retratos. Carregava centenas de fotografias amarelecidas em páginas que folheava detidamente durante a insônia e dentro dos ônibus olhando pelas janelas e nos elevadores de edifícios altos e todos os lugares onde de repente ficava sozinho comigo mesmo. Virava as páginas lentamente, há muito tempo antes, e não me surpreendia nem me aterrorizava pensar que muito tempo depois estaria da mesma forma de mãos dadas com um outro eu adormecido - da mesma forma - revendo antigas fotografias. Mas o que me doía, agora, era um passado próximo.
  
Não conseguia compreender como conseguira penetrar naquilo sem ter consciência e sem o menor policiamento: logo eu, que confiava nos meus processos, e que dizia sempre saber de tudo quando fazia ou dizia. A vida era lenta e eu podia comandá-la. Essa crença fácil tinha me alimentado até o momento em que, deitado ali, no meio da manhã sem sol, olhos fixos no teto claro, suportava um cigarro na mão direita e uma ausência na mão esquerda. Seria sem sentido chorar, então chorei enquanto a chuva caía porque estava tão sozinho que o melhor a ser feito era qualquer coisa sem sentido.
Durante algum tempo fiz coisas antigas como chorar e sentir saudade da maneira mais humana possível: fiz coisas antigas e humanas como se elas me solucionassem. Não solucionaram. Então fui penetrando de leve numa região esverdeada em direção a qualquer coisa como uma lembrança depois da qual não haveria depois. Era talvez uma coisa tão antiga e tão humana quanto qualquer outra, mas não tentei defini-la. Deixei que o verde se espalhasse e os olhos quase fechados e os ouvidos separassem do som dos pingos da chuva batendo sobre os telhados de zinco uma voz que crescia numa história contada devagar como se eu ainda fosse um menino e ainda houvesse tias solteironas pelos corredores contando histórias em dias de chuva e sonhos fritos em açucar e canela e manteiga.




" a vida tem caminhos estranhos, torturosos, às vezes difíceis: um simples gesto involuntário pode desencadear todo um processo. sim, existir é incompreensível e excitante. as vezes que tentei morrer foi por não suportar a maravilha de estar vivo e de ter escolhido ser eu mesmo e de fazer aquilo que gosto - mesmo que muitos não compreendam e não aceitem. "

domingo, 3 de julho de 2011

Exigências da vida moderna

Dizem que todos os dias você deve comer uma maça por causa do ferro. E uma banana pelo potássio.

E também uma laranja pela vitamina C. Uma xícara de chá verde sem açucar para prevenir a diabetes.

Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água. E uriná-los, o que consome o dobro do tempo.

Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam na digestão).

Cada dia uma Aspira, previne infarto. Uma taça de vinho tinto também. Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso. Um copo de cerveja, para… não lembro bem para o que, mas faz bem. O benefício adicional é que se você tomar tudo isso e ao mesmo tempo tiver um derrame, nem vai perceber.

Todos os dias deve-se comer fibra. Muita, muitissíma fibra. Fibra suficiente para fazer um pulôver.

Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente. E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada. Só para comer, serão cerca de cinco horas por dia…

E não esqueça de escovar os dentes depois de comer. Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a a lingua e bochechar com Plax. Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamente de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia.

Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mas as cinco comendo são vinte e uma.

Sobram três, desde que você não pegue trânsito. As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia. Menos você, porque todo dia você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma).

E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando.

Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações.

Ah! E o sexo! Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina. Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução. Isso leva tempo - e nem estou falando do sexo tântrico.

Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação. Na minha conta são 29 horas por dia.
A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo! Por exemplo, tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes. Chame os amigos junto com os seus pais. Beba o vinho, coma a maça e a banana junto com a sua mulher… na cama.

Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio.

Agora tenho que ir.

É meio dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro. E já que vou, levo um jornal… Tchau!

Viva a vida com bom humor!!!

                               Luis Fernando Veríssimo.




Chocolate are Girl's Best Friend

Em tempos de crise hormonal, quem pensa em diamantes?

      Drummond disse uma vez que há duas épocas na vida em que a felicidade está numa caixa de bombons: na infância e na velhice. Tudo bem, eu o perdoo. Drummond não nasceu mulher, nunca teve TPM. Ele não sabia que há um época do mês, durante toda uma vida, em que a felicidade da mulher mora bem ali: no doce sabor de um bombonzinho. Mentira minha? Ah, não sei, não. "Naqueles dias", meu bem, só um docinho na boca para salvar o humor e acalmar os ânimos. Claro que - se possível - queremos colo, elogios e um bom cafuné. Mas chocolate - ah chocolate não tem erro! Ele sempre está ali. Nos acalmando... Nos esperando... Mandando baldes de serotonina para o nosso corpo desassossegado. Um namorado também ajuda. Ou não. Quem não nasceu mulher nunca vai saber ao certo como é ser mulher. Como é ter um monte de hormônios no comando, nos deixando assim: a mercê de toda a nossa loucura. Ah, Deus tenha piedade de nós! (E de todos os homens que aguentam as nossas maluquices!). Temos direito universal de sermos loucas e complicadissímas uma vez por mês e, mesmo assim, continuarmos sendo amadas e queridas por nossos amigos e amores. Já ouvi dizer que TPM é frescura. Eu confesso que não é. Ficamos chatas de verdade e ninguém - em são consciência - quer parecer chata. (Afinal não somos burras. Ou somos?). As vezes fico irritada. Em outras, fico emotiva e comovida com todas as dores do mundo. Por favor grifem essa parte: com todas as dores do mundo. Sofro por todas, por tudo e choro. Choro vendo o Jornal Nacional, choro ouvindo música, choro por ver um humilde e pobre velhinho vendendo picolés no sol escaldante ou porque tirou o botão para pagar o pão achando que era moeda...(Ah, não!!!). E choro - copiosamente e sem fim - vendo as reprises de Greys Anatomy (por que todo hospital resolve morrer bem no dia em que fico mesntruada?). E a mão do doutor treme, o mundo treme, o queixo treme, o humor se altera e os homens - nossa! - como eles tremem! Morrem de medo de nós porque não sabem o que os aguardam. (Se a gente mesmo não sabe, imagine eles!).
   Por isso, hoje, num dia incrivelmente comum onde nada lá fora acontece e dentro de mim TUDO ferve, eu resolvi escrever esse texto. Porque vários bombons foram atraídos para o meu contexto super hormonal e consumidos sem a mínima culpa (sim, nesse período, não existe espaço para culpas!). E agora, SÓ AGORA, posso dizer com a maior certeza e doçura do mundo: CHOCOLATE É O MELHOR AMIGO DA MULHER!

 

a melody, a memory, or just one picture

   Revisitar minha coleção de tesouros alheios sempre me faz pensar nas coisas que encontrei pelo caminho entre mudanças e viagens; e claro, também nas que perdi. Essas coisas perdidas em cafés, parques e calçadas logo se transformam em partes de uma história que espera para ser contada; seja por aqueles que propositalmente as deixaram para trás para serem encontradas ou por maníacos que buscam obsessivamente por conexões inusitadas, como eu.
   Tenho que confessar minha excitação diante da menor pista para acessar intimidades alheias: pensamentos esparsos, bilhetes com chavecos de bar e livros de sebos com dedicatórias sempre me provocaram a curiosidade e alimentaram minha imaginação, garantindo um certo fervor a vida. 
   Sei que pode soar piegas, mas esse tipo de sentimentalismo me lembra a infância, quando "coisas" me fizeram experenciar a instância máxima e mais duradoura das relações.
   Aquelas coisas não tinham funções pré-definidas, e qualquer uma delas podia existir como bem entendesse: hoje tapete, amanhã vestido. Realmente eu não parecia me importar com o fato de as vezes estar vestindo um trapo ou carregando um urso sem cabeça.
   Talvez haja algo de muito inocente e romântico em carregar esse tipo de fantasia em um mundo que insiste em inovar e a substituir o "velho" pelo "novo" ao invés de cuidar, restaurar e estabelecer conexões emocionais com os objetos já gastos , mas fiéis. Sou mesmo dos que levantam a bandeira dos usados, encontrados e remendados.
Não sei bem o que dizer sobre mim. Não me sinto uma mulher como as outras. Por exemplo, odeio falar sobre crianças, empregadas e liquidações. Tenho vontade de cometer haraquiri quando me convidam para um chá de fraldas e me sinto esquisita a beça usando um lencinho amarrado no pescoço. Mas segui todos os mandamentos de uma boa menina: brinquei de boneca, tive medo do escuro e fiquei nervosa com o primeiro beijo (...) Ninguém desconfia do meu anti socialismo interno. Adoro massas cinzentas, detesto cor-de-rosa. Penso como homem, mas sinto como mulher. Não me considero vítima de nada. Sou autoritária, teimosa, impulsiva e um verdadeiro desastre na cozinha. Peça para mim arrumar uma cama e estrague meu dia. Vida doméstica é para os gatos. Tenho um cérebro masculino, como lhe disse, mas isso não intefere na minha sexualidade, que é bem ortodoxa. Já o coração sempre foi gelatinoso, me deixa de pernas frouxas diante de qualquer um que me convide para tomar um chope. Faz eu dizer tudo ao contrário do que penso: nessas horas não sei aonde vão parar minhas ideias viris. Afino a voz, uso cinta-liga, faço strip-tease. Basta me segurar pela nuca que eu derreto, viro pão com manteiga, sirva-se. Sou tantas que mal consigo me distinguir. Sou estrategista, batalhadora, porém traída pela comoção. Num piscar de olhos fico terna, delicada. Acho que sou promíscua. São muitas mulheres numa só, e homens também.

Martha Medeiros.

escolhas...

... há sempre duas portas. muitas vezes escolhemos a certa e tantas outras erramos feio! Não dá pra espiar antes de entrar. Podemos ficar estáticos e deixar que tudo se repita ou analisar, digerir nossos erros e fazer diferente. E fazer diferente não é sinônimo de acerto, mas sim de perseverança.
    Virar a ampulheta e observar cada grão. O tempo passa rápido demais, hoje as estações não se definem mais. E as emoções então? Beiram ao caos! A cada obstáculo, mais força para seguir adiante e lutar pelo nosso espaço no mundo, espaço em nós mesmos. O chão gira e nem sequer percebemos, a vida passa e sequer acenamos... já foi... tchau.
   Está na hora de tirar o peso das costas, antes que as consequências sejam irreversíveis e nossos sonhos parem na UTI.
   Se ninguém quer te ouvir, tenha certeza: você não quer falar. 
   Gastrites, ansiedade, insatisfação, dúvidas, compulsão e dificuldade, tudo isso vem e explode com tanta força contra o seu peito. Estresse!!!
   Está na hora de parar e sorrir! Leia um bom livro, olhe para o lado... ali estão as pessoas mais importantes da sua vida. Divirta-se, jogue a bolinha para o seu cão, faça uma bela caminhada no parque ou simplesmente pare, observe e aproveite tudo o que conquistou. A vida tem pressa e a felicidade também.
"sonho que se lembra é aquele que se acorda na metade.
e o que foi até o fim, não é sonho.
é realidade."